Thursday, August 02, 2012

Boemia


Diário da Presunção


Eu costumava ir naquele bar
Aquele mesmo velho bar
Com janelas quebradas e portas tortas,
Para acalmar minha sede por álcool

Eu costumava me sentar naquela mesa
Aquela imunda e mesma mesa
Com sua toalha rasgada,
Com sua cadeira quebrada,
Para saciar minha sede por álcool

Eu costumava rir com o dono do bar
Aquele porco mesmo, o dono do bar
Com restos de comida na barba
Com dentes podres e tortos
Para criar minha sede por álcool

Eu costumava transar com a garçonete
Aquela vesga e mesma garçonete
Dentro d’um banheiro ainda mais imundo
Em cima de uma privada ainda mais imunda
Para aumentar minha sede por álcool

Eu costumava ir àquele bar
Esquecendo sonhos e desilusões
E, inebriado pelo som d’um copo cheio,
Me juntava à fileira dos convivas locais
Para re-criar uma sede por nada

Eu e mais ninguém

Lembra-me do rosto cego
Talvez, por hoje, de mim
Mas nunca de momento algum
Ou de nome algum

Não sou conclave de irmãos
Não participo de reuniões
Sou avesso à nomenclaturas

Não gosto de pudores insossos
Não tomo gosto por jogos
Não me divirto com cenas
Não me vejo nessa pista

Lembra-me d’um riso amarelo
Talvez, por hoje, de mim
Mas jamais em ponto algum
Daquilo que quero esquecer

E se desse momento eu vejo
Não sei se soa... belo?
Ou se são meus olhos
A observar a miríade de cores
E a ilustração de novos olhares

Rouquidão

Sou o tipo do cara que nada sabe ver
Não percebo sua voz, tristeza, solidão
Me perco em mágoas, rudez, devassidão
Faço esquecer de mim mesmo mais uma vez

Eu sou bem daqueles que nada sabe ou quer
Ignoro minha voz, integro aspereza
Adormeço sonhos, desperto avareza
Mas jamais cultivo uma lágrima sequer

Sou fruto de fútil perversão e meu desdém
Sou aquele que esqueceu seu amor e apreço
E que transformou desejo a ódio, desleixo
Sou aquele que destruiu seu casamento, AMÉM!!

Sou sonho quando bem me lembro de ninguém
Sou apenas mais um, perdido na multidão
Daqueles cuja sorte sempre disse não
Sou mais um, preso em minhas máscaras e além

Lágrima quando desejo ser suspiro,
Sou sátira quando escondo desespero
Sou escárnio quando da lembrança almejo
E mágoa quando desejo ser sorriso

Se dessa força eu crio em esperança tardia,
Se desse fosso eu cavo em minhas memórias,
Se da lama chafurdo dessas histórias,
Esqueça meu nome e tudo que ali havia


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