Tuesday, June 03, 2008

Orquestra cacofônica

Sentou-se na cadeira da frente, em uma mesa levemente bamba. Era perto o suficiente do balcão para ser visto pelo garçom, perto o suficiente do banheiro, perto o suficiente da saída. Era seu local habitual. Gostava de sentar-se lá, apreciar sua cerveja, comer o que a cozinha tivesse a oferecer e apreciar a dança no salão. Gostava de coisas simples, de uma cachaça vez ou outra, alguns cigarros na noite e depois dormir.



Não gostava da maioria dos que ali bebiam, era avesso à ignorância e adepto da voz branda. Rabugento, preferia não conversar e evitar outra passagem na polícia. Ainda assim calmo, o suficiente para não se deixar incomodar pelo barulho e odores nada agradáveis de todos os que lá estavam. Era quase um transe o que fazia – os gestos mecânicos, o olhar cerrado, o isqueiro e o maço na mesa, a fumaça do cigarro nos olhos, a cerveja descendo garganta abaixo... Naquele instante não via mais o barulho e o asco do local, somente a si e o show. Poderia ficar por horas a fio, se o show assim o fosse. Poderia ficar naquela espelunca até amanhecer, se permanecesse aberto. Poderia beber toda a cerveja e fumar todo o cigarro sem qualquer embriaguês ou alteração respiratória, contanto que seu show estivesse a seu alcance. A sensação, para ele, era como assistir a uma orquestra. E o primeiro ato logo iria se iniciar.

A cortina se abriu, e ele viu a jovem. Estranhou toda a roupa, toda a pompa, todos os acessórios. Estranhou a maneira que ela caminhava. Estranhou a música que tocou quando abriram as cortinas. Estranhou outra coisa principal: ela não sabia rebolar, sabia dançar. Ela pisava suave, mexia seu corpo com graça, possuía uma leveza nas mãos e olhar que era insuperável. Ainda, sorria de tal forma, com tamanha paixão, que parecia dançar n’um teatro de Berlim, ao som de belas melodias de fagotes, oboés, violinos e cravo, para uma platéia que assistia ensandecida e muda pela performance. Parecia que o mundo girava ao redor da pequena.

Mas o que ela fazia ali, então? Dançando para vagabundos, bêbados, tarados e cafetões? Tamanho talento poderia facilmente encontrar porto em um teatro, conservatório ou mesmo universidade! Que ela tanto fingia satisfação estando ali? Por que se rejeitar daquela maneira, sorrindo e dançando enquanto fugia dos gracejos e toques dos bêbados, soltando leves gritos acompanhando a música? Aquilo tudo parecia um sonho. Lembrava um estupro, um sopro de pó de vidro nos olhos de um mudo. Era difícil se concentrar no show, ouvindo cada vez mais alto o grito dos bêbados e as palavras e gestos nada sutis que cada um deles soltava.

Resolveu esquecer do show, comer sua porção de carne. “Nem eu gosto de tão mal-passado!”, pensou ao mastigar a carne sangrando, enquanto seus olhos se voltavam lentamente para o palco, e continuava descrentes no espetáculo de Sodoma: uma criança solta em uma jaula de hienas famintas. Os gritos eram tantos, e a garota parecia nem ouvir. Muitos começavam a se agitar, gritando por nudez ou qualquer outra forma de entretenimento barato e pornográfico, e alguns começavam a atirar comida, garrafas e outros objetos no palco. E a garota nem se mexia incomodada.

Então ele vê um copo atingindo a pequena em cheio. Ela caiu de uma vez, sentada, com o rosto sangrando. “É, as hienas comeram sua vítima viva...”, ele pensou, enquanto via a garota correr, aos prantos, para fora do local, fugindo pela parte interna do puteiro.







...E a carniça se veste de hiena” ele falou baixo, quando viu a mesma dançarina outra vez naquele local. Dançando cada vez mais apropriadamente ao que fingia ser.

8 comments:

Leo said...

“...E a carniça se veste de hiena” é quando se percebe que o ciclo nunca tem fim... Mudam-se as personagens, mas a história se repete!
Muito bom!

Até a volta!

Amar Yasmine do AQUILIS said...

Instigante, muito bom. Ansiosa aqui pela continuação. Besos.

Raysla Camelo said...

"Dançando cada vez mais apropriadamente ao que fingia ser".

E o pior é que quando sabemos fingir, a enganação parece tão real que todo mundo acredita bem, iclusive nós mesmos.

lisiê. said...

será que ainda vai ter outra versão dessa mesma história?
adorei, vai ter continuação?

Astarte said...

Nem tanto, eu espero...rs

Juliane G. said...

Não tanto quanto o seu.
Escrever bem é um talento que pra falar a verdade eu acredito que me falta, mas vc parece mandar bem.
Assim que tiver um tempo vou continuar lendo seus textos mais antigos.
Obrigada pela visita.
[]'s

Pamina said...

Gostei muito mesmo, adoro a maneira como descreve. Dá pra sentir até o cheiro e o ar do ambiente.
"uma criança solta em uma jaula de hienas famintas" MUITO BOM!

Izabel said...

Bem, agora eu fiquei confusa rs...

Se a bailarina for a mesma da narração anterior, sabíamos que aquela tinha contas pra pagar, não tinha a quem recorrer, etc... então se sujeitava... mas esta me pareceu gostar de estar no papel, como uma jóia que tem prazer em ser bijouteria, ou seria uma bijouteria se fingindo (e mto bem) de jóia?rsrs...

Mto bom este relato tb, e creio que pode nos convidar a diferentes interpretações...

Sds Sr...

Izabel