Thursday, June 26, 2008

O Presente, Parte II

(Parte I aqui)


Abriu a porteira de entrada do chalé, passou com o carro,e a fechou de novo. Sabia que tinha de ganhar tempo, e sabia que não podia deixar evidência alguma do que acontecera ali até o devido tempo. Antes de tudo, comprou 1 toalha bem grande e 2 litros de gasolina em um frasco em um posto (“para possíveis eventualidades”, disse ao frentista). Ele pegou o carro e dirigiu norte, em direção a uma cidadezinha conhecida de data. Ele conhecia a região, e sabia dos locais de desova de cadáver. Sabia, também, dos cuidados que teria ao viajar, pelo patrulhamento da guarda florestal. Ainda se lembrava das rotas alternativas até o local, e assim o fez, tomando cuidado com possíveis guardas no caminho.

Não teve muitos problemas para lá chegar, e depois de quase uma hora de caminhada encontrou a vala. Foi duro caminhar todo aquele tempo, debaixo d’um sol quase baiano, com aquele peso na mala, além de um cutelo, a toalha e a gasolina. Posicionou a cabeça em cima da toalha, e bateu forte várias vezes, até que todo o maxilar se quebrasse. Juntou os pedaços do maxilar em um saco de lixo restante (junto de suas duas mãos e alguns fios de cabelo solto), posicionou os pedaços do corpo como lenhas em uma lareira e ateou gasolina no corpo e embaixo, afim de produzir tanto calor que o corpo ficasse irreconhecível. Teve, também, o cuidado de furar todo o corpo e encher de gasolina, para que queimasse, também, por dentro. Não queria evidências de nada que o pudessem incriminar.

Retornou ao carro, com os pedaços do maxilar e o frasco vazio de gasolina na mala, e seguiu de volta ao chalé. Como procurava ganhar tempo, não levou mais de 5 horas em cada trajeto, e chegou ao chalé antes de escurecer. Parou o carro perto da secretaria que administra o chalé que estava, pagou com o cartão dela e disse que ficariam até a manhã seguinte. Disse que ela (sem jamais dizer o nome – queria esquecer-se de tudo por ao menos momentos breves) pegou um pouco de friagem e estava bem indisposta, e que esperariam até a manhã seguinte para partir. Entrou no carro, se dirigiu até uma cidade mais ao sul e retirou o que pôde em um caixa eletrônico.

Passou a noite em uma pensão qualquer, somente para dormir em local diferente aquilo tudo. Procurava não pensar em nada, deixar sua cabeça vazia e se abster de qualquer emoção. Sabia que, agora, sua frieza era imprescindível. E, estranhamente, não acendeu um único cigarro nem mesmo saiu para uma única cerveja.

De volta à estrada, partiu rumo norte, em velocidade moderada, evitando os radares e postos policiais que desconhecia no caminho. Já perto das 3 da tarde, para em uma cidade qualquer e liga para casa, avisando que iria estender sua viagem mais alguns dias em algumas cidades em Goiás. Almoçou em um restaurante beira de estrada, lembrando de quando brincou com sua (agora ex) escrava na direção, fingindo ser mais atrapalhado que tudo no volante e só parando o carro em cima de uma ribamceira. Ao menos riu... E pagou a refeição e partiu.

Poucos antes de sair, notou que o celular dela tocava. Achou aquela a oportunidade perfeita: atendeu, disse que ela estava ocupada e não iria atender o celular até a próxima semana, pois estaria em viagem. Discutiu um pouco com a pessoa do outro lado da linha (pela voz e assunto, provavelmente alguém do trabalho dela), desligou e seguiu caminho. Já sabia até o que fazer.

Ele viajou até perto de Goiás e parou perto de uma antiga banca de fruta, já velha e totalmente destruída, em uma estrada estreita e de um cimento arrebentado que poucos usam no dia (ainda mais na noite), com a noite deixando tudo em uma incrível escuridão. Certificou-se de que não havia uma só alma viva ali. Colocou suas luvas, limpou todas as possíveis evidências digitais de que ele havia dirigido o veículo, apertou as mãos decepadas no volante (mãos estas que, agora, estavam secas e não mais pingavam sangue), na marcha, no banco do passageiro, na janela, na maçaneta do motorista, nas chaves e no maço de cigarros dela. Apertou a ponta do indicador direito em alguns botões do som do carro. Voltou com as mãos para dentro do saco. Descalço e andando na ponta de seus pés (tomando todo o cuidado possível para não afundar demais na terra), procurou bastante no mato à procura de um local afastado e sem traços de que alguém poderia ir até ali pelos próximos dias. Com cuidado, retirou o mato da terra até a raiz, abriu um buraco pequeno e fundo, enterrou o saco e tampou o buraco. Com todo o cuidado, reposicionou o mato em cima para que ninguém notasse a remoção de terra (usando a luz do celular de lanterna para se certificar) e isolou o frasco vazio de gasolina em um açude próximo já cheio de lixo.

De volta ao carro, sentou-se no banco do passageiro, pegou seu canivete e, com cuidado, cortou seu rosto de modo a escorrer sangue no carro e ao chão, simulando um seqüestro. Guardou o canivete, abriu a porta e, com todo o cuidado, posicionou a cabeça próxima ao capô do carro e a bateu com força. Ainda descalço, repetiu os passos que fez para enterrar as mãos e o maxilar dela e apagou, com todo o cuidado possível, seus rastros e, de volta ao carro e ainda descalço, fez passadas pesadas a simular pessoas indo ao carro. Já quando pisou no asfalto, foi ao porta-malas e pegou chinelos dele e botas dela.fez o mesmo com os chinelos (mas na porta do motorista desta vez). Limpou bem os pés no asfalto e em outras partes ali (mas tomando todo o cuidado para não deixar evidente que limpou os pés), entrou no carro pelo porta malas e, com dificuldade pelo tamanho diminuto das mesmas, calçou as botas, retirou as chaves, e simulou a passada dela para fora do carro, rendida. No asfalto, entrou da mesma forma no carro, tirou as luvas (e as colocou no bolso da jaqueta), pegou em todas as partes que poderia pegar no carro durante o percurso e no advento do seqüestro, calçou seu tênis e fez o mesmo, imaginando como ele iria se portar e o peso de seus pés quando ele recebeu a batida na cabeça no capô do carro.

Recolocou as luvas, abriu com cuidado o porta malas do carro (deixando lá as chaves), abriu, remexeu lá dentro com as luvas, pegou o que poderia parecer ter valor e o restante dos sacos de lixo e partiu. Andando, colocou todos os objetos (inclusive os outros sacos) em um dos sacos de lixo e se dirigiu até a estrada. Sabia que nenhum motorista iria lhe dar carona àquele momento, então somente pegou a estrada até Belo Horizonte e andou. Quando achou que já tinha andando o suficiente e estava do lado de uma ribamceira (que mais parecia um precipício), isolou o saco de lixo e continuou o trajeto. Evitou fumar todo o trajeto.

Na parte da manhã conseguiu carona com um caminhoneiro, e parou na cidade. Morto de sono e suando bicas, parou em um brechó do centro, comprou roupas, parou em uma pensão, tomou banho e dormiu. Já de manhã(quando acordou), ligou para alguns contatos e providenciou carteira de identidade falsa e uma viagem até Irlanda. Como o dinheiro não era suficiente, teria de trabalhar longos meses lá até sanar a dívida. Mas, para ele, já não importava mais. O que importava já fora perdido.

Até hoje ele vive na Irlanda, pensando o que poderia ter acontecido se sua cadela não tivesse dormido no chão frio e com algemas tão apertadas.

12 comments:

Iza In The Sky Without Diamonds said...

Você sabe que gosto da maioria das coisas que você escreve, né? Mas deste conto não gostei. Não gostei mesmo!

Besos!

lisiê. said...

ultra-violento
não por isso, mas também não gostei...

Astarte said...

Agora entendi porque o conteúdo do seu blog se tornou "questionável" e eu tenho que estar ciente disso antes de entrar... Hehe

Astarte said...

Havia escrito algo que não me fez muito bem. Daí sustituí o texto pelo "Ops", que daí saí dos Feeds também.
Quando for a hora, se for a hora, eu posto ele.

Juliane G. said...

Adorei o texto.
Tanto que li e depois que fui ver que tinha uma primeira parte, que li também e adorei.
Muito bem escrito, história chocante, prendeu minha atenção do início ao fim.
Muito bom.

lisiê. said...

e eu acho que a continuação era desnecessária...

Juliane G. said...

Quero fotografar você.
Me lembra de conversar com vc sobre isso...
Bjos!

Pamina said...

Bem, se o resultado da história é ir morar na Irlanda até que não foi tão ruim assim...rs.

Hedonie said...

ui...não sabia que vc tinha um blog de conteudo "adulto"
hahahaahah
besos
Paloma

Mulher Errada said...

Cara!!! um contista nasce!

Fabiane Colling said...

"Alguns leitores podem considerar o conteúdo desse blog questionável"

uhuuuu

uaahuhauahuahia


beijo

pensamentosubmisso said...

Hello!

Eu particularmente gosto muito desse conto... rss legal ver que houve uma continuação. Tal qual filme de terror haverá a versão III e IV ??

Respondi seu comentário no meu blog, dá pano pra manga aquilo!

Bjo :)