Monday, May 12, 2008

Da dança e do retorno

Faltava pouco para o abrir de cortinas. Um nervosismo corria o peito, subia a garganta, inebriava a fala, culpando o olhar. A roupa estava boa, a canção e movimentos decorados, mas o nervosismo da primeira vez provoca uma angústia sem precedentes. Aquilo tudo era... bom, não importa, a cortina se abre!

O espaço era tosco - mesas velhas e quebradas, acompanhadas de homens ainda mais velhos e sujos, com um olhar de deboche e insensíveis a qualquer noção de ridículo compunham o ambiente. O cheiro d'algum destilado ruim e forte exalava do cenário ébrio, junto de uma sensação nauseante e uma repulsa forte em permanecer ali por mais tempo do que o estritamente necessário. Era como se os dedos de todos pudessem tocar a mediocridade do momento, daquela sensação de podre e inaptidão. Talvez um cheiro forte, negro e incrivelmente angustiante.

O canto prosseguiu em seu momento exato, seguida da dança e dos sorrisos soltos. Sua concentração tentava prosseguir absoluta, quase abafada pelos gritos de "gostosa" e outros termos jocosos dos bêbados locais. Certamente a jovem não almejava tal público e local quando iniciou seus estudos de canto e dança, mas as oportunidades não são para poucos. E aquele era seu show! Ninguém irá estragá-lo com brincadeiras de mau gosto e termos chulos!


Os sorrisos foram constantes, assim como os gracejos insossos dos ébrios pelo bar. Alguns, próximos ao palco, tentavam apalpa-lá, mas ela se desvencilhava com graça e leveza, ignorando os demais que insistiam em atitudes baixas. Ela era a bailarina! Não era uma prostituta barata como as que eles queriam deitar, e sim uma artista! E iria mostrar todo seu encanto e capacidade naquele palco, não importava como! Ela era a sensação da noite!

E mais um giro, mais um sorriso, mais um verso a cantar. E para cada gracejo, um sorriso; para cada tentativa de agarrar-lhe, um giro e uma dança; para cada sensação de nojo de toda aquela cena, um canto forte e mais amargurado. Procurava, de todas as maneiras, enganar seu senso de ridículo e amor-próprio, que a passos curtos galgaria o estrelato, e em pouco se apresentaria nos grandes teatro. As lágrimas eram abatidas, em cada mão que se aproximava dela, em cada xingo que ouvia, em cada segundo que ali permanecia. E foram os segundos finais de sua apresentação e toda sua música.

Um copo, de uma bebida tão suja que lembrava vômito, atingiu-a na cabeça, sangrando-lhe acima da sobrancelha e sujando-a toda. Ela ainda tentou ignorar a situação, mas o ridículo de tudo não pôde ser ignorado: em prantos, deixou o palco.

E as contas não pagas, a vontade de dançar e não ter mais a quem recorrer fizeram a realidade cumprir seu papel e retornar a bailarina ao local...

12 comments:

Iza In The Sky Without Diamonds said...

Lindo seu post... Tristíssimo e lindísimo. Gosto disso...






*Feliz agora?*
=P

Bisous!

Mente Estranha said...

Um dia, talvez ela dance em um grande teatro. Mas até lá, infelizmente vai ter de suportar os bêbados imundos que cercam o pequeno recinto onde se apresenta...

Muito bom! Mesmo!

Mente Estranha said...

Um dia, talvez ela dance em um grande teatro. Mas até lá, infelizmente vai ter de suportar os bêbados imundos que cercam o pequeno recinto onde se apresenta...

Muito bom! Mesmo!

Claus Rodarte said...

"Não era uma prostituta barata como as que eles queriam deitar, e sim uma artista!", pensou ela... É cômico (ou trágico?) ver essa bailarina tentar dançar sem ter os pés no chão: se o artista só se realiza ao se entregar ao público, como espera ela ser outra coisa que não a prostituta de sua platéia? Não é o que todos acabamos por nos tornar (ainda que nos gabemos por tentarmos ser putas mais caras umas que as outras?)... Belo texto!

Raysla Camelo said...

A parte que chamou minha atenção foi exatamente a mesma que Claus Rodarte citou. Dá uma sensação de prostituição, obrigando seu corpo a tolerar um ambiente desagradável e constrangedor a fim de entregar a arte a quem não dá muito valor. Tal qual, para alguns, uma prostituta não é digna dos cuidados que uma mulher recebe, a bailarina não teve o reconhecimento que um artista merece.

"uma sensação nauseante e uma repulsa forte em permanecer ali por mais tempo do que o estritamente necessário."

Isso completa a minha linha de interpretação.

Ótimo texto.
Aliás, quanto tempo faz que eu não leu contos nesse blog?
Muuuuuuito, né?
Tanto que a gente nem se lembra!
rs

Amar Yasmine do AQUILIS said...

Belo texto, emocionante mesmo. Escreva sempre, é muito bom te ler.

besos

lisiê. said...

isso me lembrou o filme "Eu sei quem me matou"

Amar Yasmine do AQUILIS said...

De volta pra dizer que adorei "My Blueberry Nights", de Wong Kar-wai.. escrevi sobre ele lá no blog.

Besos ;-)

david santos said...

Excelente!
Parabéns.

Amar Yasmine do AQUILIS said...

A segunda parte já está lá...besos!

Raysla Camelo said...

=)

Izabel said...

Um belo relato, triste mas sem dúvida pra se refletir...

Mtas vezes aquilo que nos sufoca tb é algo que nos liberta, que nos trará algum benefício... por isso é importante não se render, e provarmos que somos maiores, mais fortes...

Um dia a bailarina será reconhecida mas antes precisa passar por algumas "provações" ou aprender algumas "lições"... são coisas da vida, todos nós passamos por isso e o importante é não se render, não se deixar abater... só assim vamos poder desfrutar do "reconhecimento" final...

Obgda por compartilhar este texto Sr, mto bom mesmo!!!

Sds...

Izabel