O espaço era tosco - mesas velhas e quebradas, acompanhadas de homens ainda mais velhos e sujos, com um olhar de deboche e insensíveis a qualquer noção de ridículo compunham o ambiente. O cheiro d'algum destilado ruim e forte exalava do cenário ébrio, junto de uma sensação nauseante e uma repulsa forte em permanecer ali por mais tempo do que o estritamente necessário. Era como se os dedos de todos pudessem tocar a mediocridade do momento, daquela sensação de podre e inaptidão. Talvez um cheiro forte, negro e incrivelmente angustiante.
O canto prosseguiu em seu momento exato, seguida da dança e dos sorrisos soltos. Sua concentração tentava prosseguir absoluta, quase abafada pelos gritos de "gostosa" e outros termos jocosos dos bêbados locais. Certamente a jovem não almejava tal público e local quazndo iniciou seus estudos de canto e dança, mas as oportunidades não são para poucos. E aquele era seu show! Ninguém irá estragá-lo com brincadeiras de mau gosto e termos chulos!

Os sorrisos foram constantes, assim como os gracejos insossos dos ébrios pelo bar. Alguns, próximos ao palco, tentavam apalpa-lá, mas ela se desvencilhava com graça e leveza, ignorando os demais que insistiam em atitudes baixas. Ela era a bailarina! Não era uma prostituta barata como as que eles queriam deitar, e sim uma artista! E iria mostrar todo seu encanto e capacidade naquele palco, não importava como! Ela era a sensação da noite!
E mais um giro, mais um sorriso, mais um verso a cantar. E para cada gracejo, um sorriso; para cada tentativa de agarrar-lhe, um giro e uma dança; para cada sensação de nojo de toda aquela cena, um canto forte e mais amargurado. Procurava, de todas as maneiras, enganar seu senso de ridículo e amor-próprio, que a passos curtos galgaria o estrelato, e em pouco se apresentaria nos grandes teatro. As lágrimas eram abatidas, em cada mão que se aproximava dela, em cada xingo que ouvia, em cada segundo que ali permanecia. E foram os segundos finais de sua apresentação e toda sua música.
Um copo, de uma bebida tão suja que lembrava vômito, atingiu-a na cabeça, sangrando-lhe acima da sobrancelha e sujando-a toda. Ela ainda tentou ignorar a situação, mas o ridículo de tudo não pôde ser ignorado: em prantos, deixou o palco.
E as contas não pagas, a vontade de dançar e não ter mais a quem recorrer fizeram a realidade cumprir seu papel e retornar a bailarina ao local...
E mais um giro, mais um sorriso, mais um verso a cantar. E para cada gracejo, um sorriso; para cada tentativa de agarrar-lhe, um giro e uma dança; para cada sensação de nojo de toda aquela cena, um canto forte e mais amargurado. Procurava, de todas as maneiras, enganar seu senso de ridículo e amor-próprio, que a passos curtos galgaria o estrelato, e em pouco se apresentaria nos grandes teatro. As lágrimas eram abatidas, em cada mão que se aproximava dela, em cada xingo que ouvia, em cada segundo que ali permanecia. E foram os segundos finais de sua apresentação e toda sua música.
Um copo, de uma bebida tão suja que lembrava vômito, atingiu-a na cabeça, sangrando-lhe acima da sobrancelha e sujando-a toda. Ela ainda tentou ignorar a situação, mas o ridículo de tudo não pôde ser ignorado: em prantos, deixou o palco.
E as contas não pagas, a vontade de dançar e não ter mais a quem recorrer fizeram a realidade cumprir seu papel e retornar a bailarina ao local...
11 passos por aqui...:
Lindo seu post... Tristíssimo e lindísimo. Gosto disso...
*Feliz agora?*
=P
Bisous!
Um dia, talvez ela dance em um grande teatro. Mas até lá, infelizmente vai ter de suportar os bêbados imundos que cercam o pequeno recinto onde se apresenta...
Muito bom! Mesmo!
Um dia, talvez ela dance em um grande teatro. Mas até lá, infelizmente vai ter de suportar os bêbados imundos que cercam o pequeno recinto onde se apresenta...
Muito bom! Mesmo!
"Não era uma prostituta barata como as que eles queriam deitar, e sim uma artista!", pensou ela... É cômico (ou trágico?) ver essa bailarina tentar dançar sem ter os pés no chão: se o artista só se realiza ao se entregar ao público, como espera ela ser outra coisa que não a prostituta de sua platéia? Não é o que todos acabamos por nos tornar (ainda que nos gabemos por tentarmos ser putas mais caras umas que as outras?)... Belo texto!
A parte que chamou minha atenção foi exatamente a mesma que Claus Rodarte citou. Dá uma sensação de prostituição, obrigando seu corpo a tolerar um ambiente desagradável e constrangedor a fim de entregar a arte a quem não dá muito valor. Tal qual, para alguns, uma prostituta não é digna dos cuidados que uma mulher recebe, a bailarina não teve o reconhecimento que um artista merece.
"uma sensação nauseante e uma repulsa forte em permanecer ali por mais tempo do que o estritamente necessário."
Isso completa a minha linha de interpretação.
Ótimo texto.
Aliás, quanto tempo faz que eu não leu contos nesse blog?
Muuuuuuito, né?
Tanto que a gente nem se lembra!
rs
Belo texto, emocionante mesmo. Escreva sempre, é muito bom te ler.
besos
isso me lembrou o filme "Eu sei quem me matou"
De volta pra dizer que adorei "My Blueberry Nights", de Wong Kar-wai.. escrevi sobre ele lá no blog.
Besos ;-)
Excelente!
Parabéns.
A segunda parte já está lá...besos!
=)
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