Thursday, January 03, 2008

Uma outra casa

"Mais fogo, mais fogo! Eu quero queimar, quero destruir, quero renovar! Quero tornar real a sede do rebento, quero ver a grama parar de crescer, quero ver o céu incendiar! Mais fogo, mais fogo! Quero ver cada pedaço desse inferno renascer e se tornar uno com a terra. Quero que se explodam todos os que discorrem o contrário, e sejam tostados nesta dança fugaz e quente! Andem, Salamandras, destruam tudo!"


Ao final do dia, houve um choque. Os pensamentos foram interrompidos por um grito. Um grito mental, silenciado pelo barulho do ônibus, mas nítido o bastante para ser sentido até pelo corpo. Um arrepio cobria sua espinha, junto daquela estranha e devassa surpresa. Não era nada agradável, e sua mente se recompôs e pensou no que já foi e em todo aquele local. Ele relembrou dos mitos de sua infância, das histórias de sua avó e de sua jornada. Ele tomou coragem, mais um fôlego, e desceu.

O ponto estava inundado de pessoas. Todas ávidas por festas, romances, bebidas, cigarros, roupas, roubos, brigas, jogos, amigos... Ele não sabia se estava ávido por algo ou só tentando entender quem queria tanto falar com ele. Ele soube, de maneira instintiva, aonde caminhar. Vacilou dezenas de passos, mas sua coragem aumentava a cada um, e não deixava de dá-los ao final da indecisão. Ele só pensava em ver a fundo tudo que parecia um sonho... pesadelo? "Que seja!", ele pensou, enquanto caminhava pesadamente, como quem carrega o peso do mundo no peito... mas nunca nas costas.

Ele olhou pela fresta de um muro, e viu um jardim. já era tarde da noite e, como de praxe, não havia ninguém no jardim. Ele observou com calma, todos os contornos do jardim, as estátuas, as estrelas no céu que iluminavam o jardim, a cerca do outro lado, as janelas da casa, a luz acesa no segundo andar, uma luz... uma TV ligada? Talvez. Não importava. Aquilo era o que sua curiosidade e o impulso de algo mais o fez ver. E ele observou com toda calma do mundo tudo o que se passava naquele terreno. E, mais estranho, era uma casa como uma outra qualquer daquela rua. Nem mais feia, nem mais bonita, nem mais estranha. Apenas... uma casa.

Ele viu um vulto no outro andar. Viu o clarão da TV apagar-se, e barulhos de alguém descendo escadas. Uma luz na cozinha se ascende, um vulto pega algo na geladeira, depois sai e apaga a luz, e parece que deita-se num cômodo no segundo andar.

E aquilo foi o bastante. O garoto saiu, foi para sua casa e deixou aquela casa tal qual a encontrou, e nunca mais lá voltou. Ele não precisava mais. E o mais engraçado é que toda essa aventura deu-se em um breve momento, ainda dentro do ônibus em que voltava para casa...


"Ouça, Destruição, não importa quantas vezes queime seu fogo, haverá sempre algo mais a crescer. Tal qual o fazendeiro a plantar, o pássaro a construir um ninho ou o rio a novamente percorrer, você nunca irá fazer nada permanente. Você é Entropia, mas esquece de Dinamismo e Êxtase..."

1 comment:

Fabiane Colling said...

eu acho q isso daki deu uma mudada total!
o//

=****