Monday, July 02, 2007

Nas canções de um cigarro, I

João de Alencar não gostava muito de se apresentar assim. Não gostava de João pelo excessivo tom jocoso que soava “Jão”, tampouco do nome completo: ou o chamavam de “Filho de José” ou de quaisquer outras bobagens. Preferia Alencar. Quando muito, na necessidade de risos ou sorrisos, só dizia J. Alencar, e deixava que pensassem o que fosse.

Alencar não era acometido do gosto pelas fuzarcas e convenções sociais, preferindo mais um simples bar, cerveja na mãe e cigarro na boca. Adorava poder jogar sua sinuca, por mais irrisório que seu jogo fosse, trocar uma palavra ou duas com a garçonete e discutir sobre alguma futilidade cotidiana sob um prisma foucaultiano com qualquer bêbado transeunte.

Não haviam muitos amigos a falar, quanto mais garotas a quem gostasse de telefonar. Ainda esperava algo que possuísse brilho próprio, energia e paixão. Estava cansado de luzes opacas, de risos amarelos, risadas abafadas pelo choro e canções engasgadas em mágoas. Preferia seu dia como quer que fosse, pois ainda assim seria seu, e de mais nenhuma máscara que porventura fosse criada por seus convivas.

Alencar procurava, a cada dia e local, algo que fosse digno de paixão, sem o selo da vaidade póstuma. E, a cada dia, procurava emoções e sabores novos, sabendo que se perdia nas mesmas sombras que combatia em sua visão de vida.

1 comment:

Raysla Camelo said...

Talvez J.Alencar estava mais preparado para o seu futuro do que todos achavam.

Talvez.