Friday, December 01, 2006

Uma breve leitura

Quero convidá-los a um breve jogo. Eu apenas digo algumas palavras e vocês dizem o que pensam em seguida, o que acham? Uma coisa simples, basta terem vontade de participar. Bem, reúnam-se nesta sala aqui. Isso, cada um se acomoda da maneira que preferir. Ei, até mesmo você que está fazendo bico aí no fim da rua, entre também! Quero que todos entrem.

Bem, dispenso apresentações. Quero só começar com algumas palavrinhas breves.

Observem aquela menina ali no sofá, sentada com outros três homens, todos com sorrisos e palavras doces nos lábios. Sorriso tão belo, cativada e paparicada por todos. Possui uma libido invejável, uma persuasão que convence até o diabo a virar evangélico. E já reparou em como ela sorri no quarto, enquanto conversa pelo seu MSN? Nas várias noites em que fica em seu computador, enquanto papai nada sabe de sua “filha querida e pueril”, ela continua seu jogo e suas noites sempre longas. Engraçado é como ela trata com desdém aqueles que não a fazem de rainha, e jamais abaixa a cabeça diante de nada. Engraçado também é o choro engasgado que ela faz toda vez que não conseguem lidar com ela. O choro engasgado que ela engole a seco toda vez que se encontra de novo sozinha, porque simplesmente não conseguiu deixar seu comodismo e mimos de lado. Engraçado... E ela ainda diz que é feliz...

Agora, vamos ainda ver aquele outro homem ali, no centro da sala. Engraçado, ele é comunicativo, fala com todos, sempre oferecendo um ombro amigo. Vejam sua força de caráter, sua autoconfiança, seu olhar perspicaz... Enfim, vejam sua auto-suficiência! Observem como ele ajuda aqueles que estão mal. Observe seu sorriso sempre afável. Observem seu jeito amável que abraça e lida com os problemas dos outros, mas... achei estranho, “nobre” homem! E seus problemas, onde estão? Quem cuida de você quando você tem problemas? Quem te abraça quando se sente só, quem te dá um beijo num momento de carência, quem te diz “parabéns” pelo trabalho? Acho que você mal deve ouvir um “obrigado”, pelo tanto que são acostumados a sua ajuda, não é? E quando você mais precisa, o que lhe resta? Solidão. Em meio a uma multidão tão extensa, ainda assim se sente o mais só do local... Muito “gratificante” mesmo o seu papel.

Eu notei aquela “dama” no balcão, bebendo uma taça de Martini, enquanto conversa com um distinto “cavalheiro”. Os dois são bem parecidos se notar bem. Ela e ele se entreolham num embalar sereno, enquanto falam de trivialidades. Assim como ela, ele se sente no pleno controle de suas faculdades mentais e emoções mais instigantes. Ela, assim como ele, brinca com seus medos acreditando assim estar vencendo os obstáculos e superando-os. Os dois, com diferenças que seriam no máximo ignoradas, alimentam seus medos repetindo a si mesmo todos os dias aquilo que mais os suprimi, e esquecendo sempre de superar seus obstáculos ao invés de construir um imenso campo de flores ao redor deles. Engraçado como eles acham que pintando seus monstros de rosa eles vão embora. Se passar maquiagem em algo e torná-lo mais bonito fosse fazer ele desaparecer, muita mulher feia por aí teria sido teleportada pra outro planeta...

Ah, e como perder aquele garoto maroto ali, com essa garrafa de vinho barato em mãos, essa roupa pré-moldada – ei, cria gosto e para de vestir à televisão! – aquele all star “sangue bom” e um bando de amigos com roupas quase idênticas, apenas por alguns detalhes que difiram. Ah, claro, muito lindo. “Eu odeio minha casa, meus pais não me compreendem, o mundo é injusto”. Muuuito sensato! Eu fico pensando... se eles tanto assim te odeiam, porque diabos pagam suas contas? Ah, mas isso não importa, não? Mas então eles nem deveriam pagar seu videogame, ou dar aquele CD foda que você tanto queria. Ah, mas porque então você tanto reclama? Pra que então balbuciar meia dúzia de problemas que não existem, pra que? Chamar atenção? “Olhem pra mim, eu tenho problemas! Olhem pra mim!” Ah, engraçado, não? Afinal, se você parasse de reclamar, seus amigos não teria porque paparicá-lo, e você seria “o diferente”? Se admitisse que acha que existem coisas lindas, iriam te olhar torto? Ai ai, essa necessidade de pertencimento, pra mim, é tão... enfadonha. Pra não dizer ridícula.

E por favor, não se esqueçam: até mesmo aquele grupinho olhando torto e se achando “os esclarecidos” é igual: reclamam, pensam e até comem igual! E da mesma maneira, condenam qualquer um que difira de seu modo “arrojado” de falar. Como se agir assim fosse muito novo...

O que ainda dizer do resto de vocês? Do “autista” no canto da sala, que por mais que diga que detesta pessoas, está em TODOS os eventos sociais, jamais larga seu MSN e ainda usa uma linha telefônica? Timidez excessiva? Não, inveja mesmo. E senso de incapacidade... ou medo de tentar. O que dizer daquele outro que só vai aos eventos porque a namorada o “arrasta” para lá? Ele diz que não gosta, que apenas “acompanha” a menina... e eu digo que é porque ele não tem a capacidade (ou a vontade) de fazer o que realmente quer, de ouvir o que realmente gosta, de ser ele mesmo... e vai aonde pode encontrar pessoas para conversar. Vai aonde a corrente te arrasta, neste marasmo de indiferença e contragosto, quando na verdade tudo se resume a medo de tentar e fracassar...

O que ainda dizer deste jocoso anfitrião, que, embalado pelos erros alheios, se esquece dos próprios erros? Um homem que todo dia veste a máscara do palhaço para não chorar e borrar toda a maquiagem! Um homem sem igual, não? Talvez. Eu diria que é apenas mais um palhaço na multidão. Talvez o tipo que briga com a mulher porque não consegue lidar com o barulho habitual, com o vai e vem de pessoas em sua própria casa. Talvez seja aquele homem que bate no filho porque não tem “tempo”, ou mesmo paciência, para ajudar o garoto no dever de casa. Talvez, em verdade, seja apenas um homem que não consegue lidar com a vida que escolheu, e nas dificuldades que teria de enfrentar. É, mais um que não consegue lidar com seu reflexo no espelho.

Engraçado é você ainda me dizer que são todos únicos, especiais, quando o medo que os envolve é o mesmo. Solidão, medo do fracasso, necessidade de pertencimento, orgulho, inveja, escárnio, ignorância... e ainda me dizem que seu ponto forte são suas qualidades. Pergunto-me se irão balbuciar meia dúzia de merdas ao acaso sobre eu não saber o que vocês “realmente” são ou se farão qualquer outra coisa... A única coisa que duvido que aconteça é uma reflexão positiva de vocês, que os faça ver além destes óculos parcos e míopes sobre o mundo que tanto insistem em usar...

10 comments:

andre said...

legal
mas assim agente vai acabar perdendo a esperança

Sua mulher said...

Quanta crítica... O.o'


E eu lembro que vc escreveu um parágrafo desse texto pra mim....

Bia Ferreira said...

hum... acho que me pareço em parte com a primeira menina..
é.. todos temos máscaras.. todos temos refúgios.. todos variamos em quem somos.. e é dificil não mentir pra si mesmo...

monjh said...

há uma razão inerente a tudo, que e chama "auto-crítica".

falta isso ao mundo.

De Umbris said...

Gostei desse texto, é uma consciência tentando não cair em qualquer das armadilhas apontadas.

No entanto, fica a pergunta:
"Fugir como, pra onde?" O que é ser "você mesmo"? (E será que esta é a resposta?)

O autor afirma que todos nos reduzimos às mesmas questões. No entanto, será que o fato de que ambos defecavam iguala um Hitler e um Gandi?

Faltou apontar um personagem que estivesse num outro canto da sala, escrevendo sobre os demais?

Lhe pergunto: o que fazer pra estar certo e não ser o hipócrita?

monjh said...

aí escolho kant e schoppenhauer: nunca estaremos livres das máscaras e das prisões que nos impomos. até mesmo quem critica está fadado a jogar o tabuleirod e xadrez.

se libertar? sim, pode ser. mas, antes, seria bom admitir que vc usa máscaras, e que vc não é especial , ou diferente, por isso.

monjh said...

ainda, escolhendo wittgestein: há certas cosias que não pertencem à lingugem, porque nossa lógica é pequena demais para compreender tudo que nos cerca. há coisa que só se percebe nas ações, em pequenos gestos.

Miss Supahstah said...

Medos iguais, reações diferentes! Pronto, falei. Gostei muito do texto.

Posso mentir pra mim mesma hoje, e essa mentira pode se tornar verdade amanhã! Tudo é relativo.. E muitos clichês no mesmo comentário. Deixa quieto!

Rcesar said...

Muito bem redigido, belo post.

Anonymous said...

Todos temos máscaras e mentimos para si mesmos, mas como sabemos que estamos agindo errado se pensamos que estamos agindo certo?
E como sabemos que estamos agindo certo se pensamos que agimos errado?

É facil falar do comportamento das pessoas e vc sabe falar dos seus??

qual dessas pessoas vc se identifica ou vc faz a diferença por falar sobre a sua revolta sobre tudo q nao lhe agrada??

Todos tem a liberdade de falar sobre oq quizer,
Mas acho q deviamos parar de reclamar um pouco da vida, dos problemas e diferenças q nos mesmos criamos, para agradecer.

Não precisamos fazer a diferença porque ninguem é igual, talvez seja por isso que exista o preconceito, porque cada um tem uma opniao, um pensamento, um ato diferente, e ninguem aceita aquilo q nao lhe agrada.

Quem somos nos para falar de alguem??

Seja vc mesmo para falar de vc, analize primeiro suas atitudes, seu pensamento, suas palavras,oq vc ganha reclamando tanto do mundo??
o mundo nao é perfeito,eu sei, porque nao existe perfeiçao...
e nao adianta vc perder seu dia inteiro pensando na porra desse mundo, pra escrever suas revoltas depois, vc nao vai concerta ele apenas reclamando vc ta fazendo algo pra muda-lo??

e as pessoas em sua volta oq elas pensam de vc? oq elas acham da sua hipocrisia? ou vc so se envolve com pessoas do seu tipo? e os sonhadores vc aceita as opnioes e decisoes deles,vc concorda com eles?? todos nos sabemos q esse mundo esta perdido, mas nem por isso temos q nos perder tambem, ha um mundo atras dessa ignorancia...


...um mundo q vc mesmo cria em sua volta e é isso q o faz piorar q mundo vc criou pra vc????????