Tuesday, November 28, 2006

A Besta da Floresta

Duas horas se passaram desde o por do sol. Já eram mais de duas horas que Vandal descera a montanha. O brilho da lua já iluminava boa parte da mata, mas ainda assim o receio tomava conta do coração de Kendal. Seu irmão se aventurara numa parte perigosa da floresta. Lendas diziam que ali habitava uma temível criatura que não tinha nenhuma piedade com os homens, mesmo crianças! E, apesar do aviso do irmão mais novo, Vandal descera a montanha, floresta adentro, para procurar a bola que caíra na mata. “Se nosso pai descobre” – pensa Kendal – “ele nos deixara um mês cuidando dos porcos!” E mesmo sabendo da punição, Vandal se aventurava por aquela região inexplorada.
Mais algumas horas se passavam, e nada de Vandal voltar. Kendal já estava impaciente, e sabia que, a qualquer hora, seu pai apareceria e lhe puxaria pelas orelhas, junto com seu irmão. Ele não queria ficar de castigo, então desceu a procura do irmão. Mesmo com um frio na espinha, e sua intuição literalmente gritar “Não!”, ele foi. Mesmo sabendo dos perigos que aguardavam, das feras sedentas por carne, da Besta da mata. Mas seu irmão era mais importante. Ele precisava achar Vandal.
Ao adentrar a floresta, estranhos olhares pareciam seguir Kendal por toda parte. Era como se ele estivesse sendo observado, e por algo que estava em todos os lugares ao mesmo tempo. Olhos estranhos, como que pulassem em Kendal a todo momento, mas fugissem quando olhava para procurá-los. Parecia que a Besta sabia que o garoto estava ali. E isso fez seu coração trepidar ainda mais de medo.
O caminho parecia se fechar a cada passada que Kendal dava. O ar se tornava mais rarefeito, faltando aos pulmões. A vista cansava, os olhos pesavam. As pernas estremeciam, o coração batia cada vez mais rápido, devido ao medo, ansiedade, tristeza. Talvez ele não consiga achar o caminho de volta. Talvez seu irmão esteja morto, com a Besta esperando por Vandal. Mas ainda assim, achar seu irmão era mais importante. Ele precisava achar Vandal, custe o que custar!
Um gemido de dor estremeceu o coração de Kendal. “Vandal se feriu!”, pensou Kendal, e correu em direção ao gemido. Enquanto corria, o caminho se iluminava como que fosse dia, mesmo sendo quase meia-noite! “Seria a floresta realmente amaldiçoada? Será que todos tinham razão, ao dizer para nunca se aproximar da floresta? Será que estou pondo minha vida e a de meu irmão em risco? Não, eu irei socorre-lo, e nada vai me impedir!” Um furor de compaixão pelo irmão tomou conta de Kendal, enquanto ele corria cada vez mais rápido, e nada parecia detê-lo!
Com determinação no olhar, ele corria em direção ao gemido. Ele sabia que muitas feras habitavam aquela floresta. Ursos, cães selvagens, lobos, a própria Besta... mas nada impediria o jovem de achar seu irmão. Sua fúria era tamanha que impressionaria até mesmo o mais bravo guerreiro que havia no condado. Nada impediria Kendal de chegar ao seu destino. Ele encontrará seu irmão, e tudo ficará bem. Suas passadas estavam cada vez mais fortes, e ele se dirigia a clareira da floresta. Ele podia ouvir a respiração de seu irmão. Era como se estivesse uno com ele agora. A luz se tornara mais forte. E um estranho sentimento de paz tomava conta do lugar.
Ao chegar na clareira, viu Vandal, sentado sobre algumas pedras, observar um belíssimo pássaro, todo branco, que emitia uma luz quase divina. Era como se um anjo pairasse diante deles. Toda a glória, o resplendor, a alegria, o amor... tudo estava ali, naquela estranha, embora belíssima, ave. Todos os animais da floresta se aproximavam, cada vez mais, para admirar aquela ave. Nada parecia ser capaz de machucá-los agora, em companhia do animal. Tudo estava bem, e não havia nada para se preocupar. A paz era extraordinária.
O pássaro olhou para Kendal, e este se viu convidado a estar a seu lado. Vandal levantou e se pôs ao lado de seu irmão, que acabara de entrar no centro da clareira. O pássaro olhou fundo nos olhos de cada um. Colocou suas asas no rosto de cada um dos jovens, uma asa em cada rosto, e eles fecharam os olhos. Espasmos de luz passavam por suas vistas, como raios que percorriam o céu. Os espasmos aumentaram sua intensidade, e já era um verdadeiro turbilhão de energia. Toda aquela luz se condensou, transformando-se numa única luz. Era como olhar diretamente para o sol, e este encher sua vista com seu brilho. A luz era forte demais, e os dois jovens garotos desmaiaram devido ao gozo de alegria. A ave sorriu, e os abraçou com suas enormes asas.

Na manhã seguinte, os camponeses procuravam pelos garotos desaparecidos. Depois de muita busca pelos arredores, resolveram adentrar a Floresta Maldita. Rastros indicavam ao centro da mata, onde havia uma clareira. Ao chegarem ao centro, encontraram os garotos. Mortos. Seus corpos estavam completamente ressequidos, como se suas almas tivessem sido arrancadas do corpo. Os cabelos embranquecidos, a pele completamente pálida e pegajosa, as unhas negras. Sem língua, sem orelhas, sem nariz, os órgãos esvaecidos, como se estes nunca tivessem existido. Sem marca de presas, garras, ou qualquer outra coisa que indicasse um animal. Sem sangue algum também. E, como todos os outros cadáveres em tal estado, os garotos possuíam um estranho sorriso nos lábios.
Sem dúvida, era obra da Besta.

3 comments:

Persona Livre*** said...

Menino que medo.. bem sombrio.. vou elogiar aqui sua narrativa, prendeu.. muito bem amarrada..

Wer said...

Estupendo, clímax perfeitoS! Todos os dois... :P O que o passáro os "abençoa" e o que a verdadeira natureza da "benção" é revelada ^^ Prodigioso deveras!

andre said...

Massa!